AUTOMUTILAÇÃO,UM FLAGELO DOS JOVENS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

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O QUE É A AUTOMUTILAÇÃO ?

Automutilação (AM) é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Os atos geralmente têm como intenção o alívio de dores emocionais e em grande parte dos casos, estão associados ao Transtorno de Personalidade Borderline. As formas mais frequentes de automutilação são cortar a própria pele, bater em si mesmo, arranhar-se ou queimar-se. A automutilação é comum entre jovens e adolescentes que sofrem pressão psicológica.

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Definição

Automutilação refere-se a comportamentos onde demonstráveis feridas são autoinfligidas. A maioria das pessoas que se automutilam estão bastante conscientes de suas feridas e cicatrizes e tomam atitudes extremas para escondê-las dos outros. Eles podem oferecer explicações alternativas para suas feridas, ou tapar suas cicatrizes com roupas. A pessoa que se automutila não está, usualmente, querendo interromper sua própria vida, mas sim usando esse comportamento como um modo de cooperação para aliviar dor emocional e desconforto.
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Perfil do automutilador

O automutilador tende a ter grandes dificuldades para se expressar verbal ou emocionalmente, portanto, não consegue falar publicamente sobre suas angústias nem chorar diante de outras pessoas. Essa dificuldade de expressão acaba, em muitos casos, sendo um forte fator que desencadeia o comportamento automutilador. Alguns indivíduos afirmam que escrever (textos, poemas, contos, músicas, etc.) lhes parece de grande ajuda, como uma forma de expressar suas emoções, o que não conseguem fazer de outras formas. Desse modo, a necessidade de se automutilar diminui significativamente.
Não possui amor próprio e usualmente define a si mesmo como sendo "um lixo humano, uma criatura insuficiente e fracassada, que não tem direito de conviver com os demais". Desse modo, alguns tendem a se afastar da família e dos amigos, buscando poupá-los do mal que presumem ser a sua presença. Com o tempo, se veem executando sozinhos atividades que costumavam fazer em grupo.
Geralmente afirmam automutilar-se com a intenção de interromper uma dor emocional muito forte. A maioria alega se tratar "de uma espécie de troca, da dor emocional pela dor física". Além disso, vários automutiladores se ferem também como uma forma de punição, por se sentirem insuficientes e fracassados. Todos eles descrevem o desejo automutilador como algo incontrolável, como um vício do qual, ainda que queiram, não conseguem se libertar.
Logo após uma crise, em que o automutilador fere o próprio corpo ou apresenta qualquer outro comportamento autoagressivo, o sentimento que permanece é, geralmente, de culpabilidade. O indivíduo geralmente chora muito e a sensação de fracasso é extrema.
Possui extrema dificuldade em falar sobre si mesmo, principalmente sobre a doença, pois tem medo de não ser aceito, julgado ou incompreendido, pois a grande maioria das pessoas que não passam pelo mesmo não compreendem este comportamento e/ou a sua origem.
Constantemente se descobre buscando feridas ou cicatrizes nos pulsos de outras pessoas, talvez como uma forma de não sentir-se tão só ou de tentar ajudar essa pessoa, pois sabe o quão mau é não ter ninguém que o ajude e compreenda.
Alguns abandonam qualquer tipo de atividade em que seja necessária a exibição do corpo, como ir à praia ou a um clube, para que suas feridas e cicatrizes permaneçam ocultas e, desse modo, não tenham que falar sobre o problema nem corram o risco de serem impedidos da prática.
Não possui qualquer expectativa com relação ao futuro, pois se considera incapaz de alcançar qualquer coisa realmente boa - razão pela qual se surpreende muito quando alcança grandes feitos, como passar no vestibular ou conquistar o amor incondicional de alguém que lhes interesse. Ainda que acontecimentos do gênero lhes sejam de grande benefício, não são o bastante para que abandone as práticas autoagressivas, o que faz com que retorne à mesma falta de expectativas a respeito da vida.
Quando o indivíduo consegue superar a doença, o primeiro problema com que se depara é a sensação de vazio. Muitos ex-automutiladores afirmam que se tornaram incapazes de qualquer sentimento comum ao ser humano, como ódio, raiva, indignação, medo, insegurança, alegria, amor, etc. Sentem-se apáticos e desinteressados com relação a qualquer assunto que os rodeie. "Se alguém morresse ao meu lado, eu não daria a mínima" é uma sentença que bem traduz esse estado de espírito. Tal sensação tem sido observada em vários indivíduos, porém, não se estende por muito tempo. Ainda que tenha alguma recaída, o ex-automutilador tende a sentir cada vez menos falta do comportamento autoagressivo e com o tempo, o abandona completamente.
Embora os automutiladores acreditem que sua prática faz com que passe a dor emocional (ex. ódio, raiva, medo, culpa, etc.), essa é uma impressão falsa. O que ocorre é que a dor emocional é suplantada momentaneamente pela dor física. Quando perguntadas por familiares ou amigos, muitas pessoas respondem não saber por que fazem isso.
Os automutiladores, no geral, sentem compaixão por outras pessoas na mesma situação e tentam ajuda-las, muitas vezes querendo que outros parem com este comportamento mesmo que o pratiquem também.
Alguns automultiladores não querem ser ajudados, como é o caso da personagem Sylwia do filme polonês Sala Samóbojców.

Formas de automutilação

Uma forma comum de Automutilação envolve fazer cortes na pele dos braços (comumente o pulso esquerdo), pernas, abdômen, coxas, etc. O número de métodos automutilantes se restringe à criatividade do indivíduo. Os locais de lesão são, geralmente, áreas escondidas de uma possível detecção por outras pessoas.
Exemplos de formas de automutilação:
  • Esmurrar-se, chicotear-se
  • Cortar-se com giletes,navalhas,vidros,facas ou pontas de apontador
  • Enforcar-se por alguns instantes
  • Morder as próprias mãos, lábios, língua, ou braços
  • Apertar ou reabrir feridas (Dermatotilexomania)
  • Arrancar os cabelos (Tricotilomania)
  • Queimar-se, incluindo com cigarro, produto químicos (por exemplo, sal e gelo)
  • Furar-se com agulhas, arames, pregos, canetas
  • Beliscar-se, incluindo com roupas e clips para papel
  • Ingerir agentes corrosivos, alfinetes
  • Se Bater
  • Socar paredes e outras superfícies rígidas/ásperas capazes de machucar as mãos (como o tronco de uma árvore)
  • Envenenar-se, medicar-se (por exemplo, exagerar na dose de remédios e/ou álcool), sem intenção de suicídio.
Auto-lesão entre indivíduos com distúrbios de desenvolvimento (por ex., autismo, retardamento, inteligência limítrofe) envolve, geralmente, ações relativamente simples, tais como bater a própria cabeça contra a parede, esmurrar superfícies duras e morder-se. É comum desenvolverem pica, que corresponde a um transtorno onde o afetado engole substâncias/objetos que não são comestíveis.

Possíveis Causas

A automutilação é usualmente associada ao Transtorno de Personalidade Borderline, porém, grande parte dos automutiladores não sofrem desse transtorno de personalidade. A doença tem acometido cada vez mais pessoas e, nos dias atuais, tem sido observada sua crescente associação a problemas como Depressão, Transtorno Bipolar, Síndrome do pânico, Bulimia, Anorexia, Bullying, epilepsia, problemas emocionais, transtornos alimentares dentre outros.
Outro fator que deve ser investigado está relacionado à associação entre dor e prazer. Em muitos casos a origem do problema está em crianças que ficaram internadas em hospitais, às vezes por muitos dias ou meses. O comportamento autodestrutivo constantemente carrega uma carga de prazer associado, muito comum de ser encontrado em masoquistas. O psicanalista Robert J. Stoller escreveu em seu livro (Pain and Passion: a psychoanalyst explore the Word of S&M, Ed. Plenum Press) que a maior parte dos membros de grupos sado-masoquistas passaram por tratamentos dolorosos na infância. Eles ficaram submetidos à relação entre dor e alívio; o que gerou um forte condicionamento mental que faz com que a dor seja o gatilho para a percepção do prazer.

Tratamento

A associação psicoterapia e medicação tem se mostrado eficaz nos casos de automutilação. A psicoterapia, nestes casos, tem como um dos objetivos ajudar o paciente a identificar outras formas de lidar com frustrações que sejam mais eficazes do que seu comportamento. Ainda não há medicação específica indicada para que o paciente pare de se mutilar, entretanto, a medicação pode ser indicada para alívio dos sintomas depressivos e ansiosos que podem colaborar para a manutenção do comportamento. Há também medicações que são usadas para diminuir a impulsividade e que ajudam o paciente a resistir à vontade de se machucar, caso esta apareça. O ideal é procurar um bom profissional, um psicólogo ou psiquiatra, que possa identificar as causas do problema no paciente e tratá-las. Contudo, é importante que essa iniciativa parta do próprio paciente, não sendo indicado forçá-lo à situação, o que poderia agravar seu quadro. O melhor é que família e amigos o incentivem a procurar voluntariamente ajuda médica, e facilitem o acesso. O automutilador necessita, sobretudo, do apoio da família e dos amigos.

Bibliografia

  • Automutilação. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2007. [Consult. 2007-12-13].

Fonte:Wikipédia

Automutilação – sofrer para viver

Cicatrizes, cortes, queimaduras… adolescentes e adultos que se mutilam intencionalmente. A automutilação é muitas vezes subestimada. O porquê desta necessidade?
São muitos e variados os meios que podem ser usados na automutilação: lâminas de barbear ou facas, x-atos, queimaduras, tesouras, mordidas… Longe da vista dos outros, no refúgio do quarto ou de uma casa de banho. Estas lesões praticadas repetidamente não têm a intenção de chamar a atenção, representam antes uma forma de controlar as emoções, ansiedades, raiva, sensação de vazio… uma expressão de grande mal-estar interno, como forma de aliviar fisicamente a dor que é psicológica e emocional.
A grande maioria dos casos de automutilação observa-se na fase da adolescência (etapa de grandes alterações a todos os níveis), pelo que é mais uma razão para os pais estarem muito atentos à expressão emocional dos filhos nesta fase complicada, prevenindo que as intolerantes dores sentimentais e conflitos do quotidiano se silenciem com autoagressões.
Muitas são as causas que poderão estar na origem ou associadas a este comportamento autodestrutivo: problemas emocionais, depressãoansiedadeperturbação bipolarperturbações de personalidadeperturbações de comportamento alimentar, entre outras. Em alguns casos, a automutilação pode ser a tradução de problemas mais graves. Os pais que descobrem este problema não devem hesitar em procurar auxílio junto de um técnico de saúde (psicólogo ou psiquiatra), para que ajude o filho a compreender as razões do seu comportamento e a reconciliar-se com o corpo, limitando os danos possíveis.
O acompanhamento por um profissional de saúde é essencial para ajudar estes jovens a darem nome às suas emoções, a identificarem formas saudáveis e adequadas de lidar com os seus problemas e angústias, a aumentarem a autoestima e aprenderem a gostar de si mesmos.
Em termos familiares é também fundamental repensar o que poderá estar a acontecer. Muitas vezes este comportamento denota algumas carências (na família, amigos e outros grupos de referência) que deverão ser analisadas. É essencial restaurar o diálogo de forma a poder ouvir este grito de socorro do seu filho.
Quando o adolescente recorre à auto-mutilação para lidar com o sofrimento
Alguns dos adolescentes que partilham em consulta que se auto-mutilam admitem que já o faziam há algum tempo antes de os pais terem tomado conhecimento. Na maioria das vezes os pais referem mesmo não terem identificado quaisquer sinais de alarme, ficando muito assustados e imersos numa grande preocupação e desorientação quando confrontados com a partilha do filho. A dor de um adolescente que se auto-mutila é grande… E por isso pais e outros adultos cuidadores anseiam por orientações que acalmem a própria angústia, possibilitando um apoio adequado ao jovem.
Embora possa parecer estranho, a auto-mutilação entre os jovens pode ocorrer como uma espécie de “moda”, quando alguém no grupo de pares experimenta fazê-lo e acaba por ser seguido pelos outros. Sendo uma experiência dolorosa, a maioria dos adolescentes acaba por interromper o comportamento. No entanto, quando a auto-mutilação persiste, geralmente é porque estamos perante um jovem que vive em grande sofrimento emocional, que busca na dor do corpo uma “justificação” para a dor emocional. Reflectindo com o adolescente sobre a sua relação com as emoções, este começa a ganhar consciência de que é mais sensível às emoções, sentindo-as de forma mais profunda e intensa que os outros, optando por não as expressar, “guardando-as só para si”, e demorando mais tempo a sentir-se reconfortado, com todos os custos que isso acarreta.
Manter a calma será um importante primeiro passo a adoptar pelos pais quando descobrem que o filho se auto-mutila. Alguns pais reagem com pânico e desorientação, o que poderá agravar ainda mais a sensação de desconforto do adolescente. Dizer apenas para parar de o fazer terá também pouco efeito. No entanto, retirar do alcance do jovem objectos com que se possa magoar pode ser de extrema importância. Paralelamente, e com efeito mais duradouro e profundo, será fundamental adoptar uma postura de disponibilidade para escutar o que preocupa o jovem e o que está a sentir. Assim, mostre interesse por aquilo que o jovem pensa e sente, dando-lhe espaço para (mas não o obrigando a) partilhar.
Em simultâneo, o encaminhamento para um profissional qualificado, como um psicólogo, será importante no sentido de serem aprendidas/desenvolvidas outras estratégias de regulação emocional alternativas e mais adequadas.
A comunicação eficaz dentro da família é verdadeiramente importante para que o adolescente se sinta seguro, valorizado e confiante, pelo que se sugere a existência de um momento diário, nas rotinas da família, em que todos se sintam livres e aceites na partilha de ideias, dúvidas, preocupações e conquistas.
Fonte:http://oficinadepsicologia.com/quando-o-adolescente-recorre-a-auto-mutilacao/

Automutilação: 11 coisas que as pessoas que se agridem querem que você saiba

A autoagressão, ou violência contra si mesmo, é um tema bem pouco discutido.
"Muitas pessoas que se agridem dessa forma não pedem ajuda. Você pode até estar ciente que têm alguns sérios problemas, mas não acha que precisa contar para alguém – então você não fala sobre isso", de acordo com o Royal College of Psychiatrists.
Muitas pessoas não sabem bem como falar ou apoiar um amigo ou familiar que se automutila, o que significa que ainda existem muitos equívocos sobre de que forma e por qual motivo as pessoas se machucam.
Para ajudar a remediar isso e conscientizar sobre a automutilação, pedimos a 11 pessoas que se autoflagelam para falar uma coisa que elas mais queriam que as pessoas no seu círculo de apoio e o público em geral soubessem:
  • "Fazemos isso para sobreviver, não para morrer" - Angela
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  • "As pessoas acham que fazemos isso para chamar a atenção, mas não. Guardamos coisas para nós mesmos" – Christine
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  • "A autoflagelação é como um segredo, mas é somente ao falar sobre isso que nós podemos transformar em algo que é menos tabu e remover o estigma" – Sonia
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  • "Pensamentos destrutivos e impulsos não discriminam por gênero e eu queria ter percebido isso uns 15 anos atrás" – Brendan
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  • "Para mim nunca foi algo destrutivo –afinal de contas, eu estava destruindo meu corpo de uma forma muito mais drástica com a minha desordem alimentar. Era o menos pior, dos dois males" - Cal
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  • "É um mecanismo para encarar as coisas de forma rápida e a curto prazo e nunca é feito de forma planejada para causar sérios danos a mim mesma" – Claire
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  • "Pode ser bem viciante. Então se alguém pedir para você parar, não é algo que você consiga fazer da noite para o dia" - Jonas
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  • "Eu usava duas camisetas, uma antes e outras depois que eu me feria ou eu ficava quente demais. Eu não estou tentando jogar isso na cara de ninguém. Eu não estou tentando ser ousado... Eu me visto
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  • "Algumas pessoas não entendem o quanto isso pode controlar sua vida. Mesmo se você não estiver fazendo isso, os pensamentos ainda estão com você todos os dias" – Andy
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  • "Existem tantos motivos pelos quais alguém pode se autoflagelar. Meu relacionamento com isso e como eu me sinto sobre vai ser totalmente diferente do que dos outros" – Jess
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  • "A melhor coisa que você pode fazer por quem sofre é ouvi-lo. Apenas deixe que eles falem sem tentar presumir nada, nem interromper, e descubra o que está acontecendo" - Anne
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Alguns nomes foram alterados a pedido daqueles que falaram conosco, para proteger sua identidade.
(Tradução: Simone Palma)
Fonte:http://www.huffpostbrasil.com/2016/04/19/automutilacao-coisas-que-_n_9719922.html

Cutting: automutilação na adolescência é indício de tristeza

O fenômeno - um transtorno mental manifestado em pequenos cortes pelo corpo - é diferente de tentativa de suicídio, mas a automutilação deve ser sempre tratada como uma demonstração de tristeza.


O que fazer ao perceber que seu filho está machucando a si mesmo? “A mesma coisa que faria ao perceber que ele está chorando”. Esta é a orientação da psiquiatra do Ambulatório da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq HC - USP), Jackeline Giusti. A automutilação deve ser sempre tratada como uma demonstração de tristeza, diz.

Pequenos cortes pelo corpo e a tentativa de escondê-los dos pais são os principais sintomas da automutilação, ou cutting, que é reconhecida como um transtorno mental desde 2013, segundo a psiquiatra. No Brasil, não existem estudos epidemiológicos sobre a automutilação, mas pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que a prática está ficando mais frequente na última década.
O mais importante é reconhecê-la como um transtorno mental que precisa de atenção e cuidado, por meio de avaliação psiquiátrica. Em casa, o apoio da família é essencial. Os pais não devem dar bronca ao perceber os cortes ou tratar o ato como travessura, mas sim oferecer conforto e compreensão. A família precisa entender que é um problema e que existe tratamento.
O cutting não tem como objetivo chamar a atenção, mas é usado como um escape para aliviar a tensão. Quem o pratica não quer que os pais saibam, porque quer continuar usando esse “analgésico” para dor emocional. Segundo Jackeline, quanto mais cedo o transtorno for tratado, maiores são as chances de a prática não se repetir.
As principais características do transtorno, que normalmente começa em torno dos 13 anos de idade, são pequenos cortes superficiais feitos pelo próprio adolescente, em locais do corpo que possam ficar escondidos sob a roupa, sendo os braços o local mais comum.
Segundo Jackeline, no entanto, a automutilação é diferente da tentativa de suicídio; a pessoa se corta mas sabe que não vai morrer por causa disso. “A motivação referida pelos pacientes é que eles se cortam para aliviar uma sensação ruim”, diz. Sensação de vazio, angústia, raiva de si mesmo, tristeza com ou sem motivo e até para relaxar são outros motivos apontados.
Filmes e vídeos podem incentivar 

A automutilação muitas vezes está relacionada a outros problemas psicológicos, como depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtornos alimentares. Até a influência da mídia pode iniciar um episódio de cutting, porque o adolescente fica sabendo que a prática existe por meio de filmes, seriados ou em vídeos na internet. Segundo a psiquiatra, a adolescência é uma fase de experimentação, de modo que ver alguém se cortando pode ser suficiente para fazer também, seguir como se fosse uma “moda”, diz.
Nem todo adolescente que tenta o cutting uma vez vai continuar praticando. A pessoa só sente o alívio ao se cortar se já tem uma situação de estresse prévia; caso contrário, só sente dor. Se o paciente está em condição psicológica normal, ele não repete mais.
O transtorno também pode se manifestar sem a necessidade de influência externa. Segundo Jackeline, em um acesso de raiva, o adolescente se machuca, se fere sem querer com algum objeto e percebe que, com a dor física, ele sente algum alívio. Em pacientes que praticam por períodos longos, um ano ou mais, pode acontecer de se cortarem em momentos de tristeza e também de euforia. É como um vício, e a pessoa pode sentir a necessidade de se machucar mesmo sem estar passando por problema algum.
Apesar de diminuir ou até desaparecer com o tempo, a automutilação pode ocorrer em adultos. É um transtorno que tem idade para começar mas não para acabar, segundo a psiquiatra. Tende a diminuir depois dos 20 anos, mas, se não tratado, pode continuar ao longo da vida. E se o prejuízo social já é grande quando ocorre na adolescência, na vida adulta pode ser ainda pior.
O papel da escola 

A escola precisa reagir ao observar qualquer processo de sofrimento com crianças e adolescentes, diz a integrante do Núcleo Vida e Cuidado e professora aposentada de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ana Maria Borges de Souza. O professor que está em contato direto com os alunos tem que olhar com atenção para qualquer forma de sofrimento - observar o corpo, porque, muitas vezes, é ele que expressa o sofrimento.
A escola deve acolher afetivamente esse aluno, demostrar que está disponível para escuta e que pode compreender seus problemas. Segundo a professora, a conversa deve ser primeiro com o aluno, mostrando que a palavra da criança tem valor na escola. Essa conversa também deve servir para verificar se existe algum conflito familiar, e só depois a escola deve chamar a família para discutir o problema. “Se o motivo está em um problema em casa, chamar os pais primeiro pode ser ainda mais prejudicial para a criança”, diz.
Bullying 

Sofrer bullying pode provocar o transtorno porque o adolescente busca uma forma de liberar a tensão que vive na escola. Se os cortes e marcas na pele são descobertos por outros alunos, podem virar motivo para o bullying. Segundo Ana Maria, nesses casos, a escola deve promover uma conversa com todos os envolvidos na situação. Levar o tema para a sala de aula, conversar com os amigos próximos da criança ou adolescente que está sofrendo, com os alunos que promovem o bullying, com o namorado ou a namorada.
De acordo com a professora, é necessária uma medida pedagógica que não foque apenas no sujeito que se corta, mas que também absorva o contexto e busque compreender os motivos que levam ao sofrimento, se é homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de preconceito. A escola também precisa oferecer proteção - não individualmente, mas criar uma rede em torno do aluno vulnerável, mobilizando todo o grupo escolar. E, se identificada uma situação de violência doméstica, o caso precisa ser encaminhado para as autoridades competentes.
Tratamento 

Transtornos mentais como o cutting não podem ser tratados apenas com medicamentos. Segundo Jackeline, o tratamento deve ser metade medicação e metade psicoterapia (acompanhamento psicológico). Como é muito comum ter outros problemas psiquiátricos associados, eles devem ser tratados ao mesmo tempo, mas sempre com o cuidado de utilizar remédios que não atrapalhem a vida escolar do adolescente.
Fonte:https://www.terra.com.br/noticias/educacao/cutting-automutilacao-na-adolescencia-e-indicio-de-tristeza,698fa8d6b7cc5410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

Prática de automutilação entre adolescentes se dissemina na internet e preocupa pais e escolas

Em página com mais de 10 mil curtidas, jovens mostram cortes feitos no corpo; psiquiatra fala em tons de epidemia

Cortar na própria carne não é uma metáfora para muitos adolescentes. A disseminação da prática da automutilação em redes sociais dá uma pista sobre um problema que, no Rio, preocupa um número crescente de especialistas e escolas, que têm organizado palestras e eventos sobre o tema. Psiquiatras cariocas já falam em “epidemia” de um castigo autoinfligido para, na ótica dos jovens, minorar sofrimentos emocionais ou psicológicos. E alertam: grande parte dos pais sequer percebe que os filhos têm se cortado com canivetes, lâminas de barbear e até lâminas de apontadores de lápis.

Administradora de uma das páginas sobre automutilação no Facebook, com mais 10 mil

“curtidas” em menos de um mês de criação, A., de 15 anos, diz que o intuito não é incentivar, mas ajudar os jovens que sofrem do mesmo problema, sem julgá-los. Na rede, eles postam fotos das feridas e trocam experiências e telefones para formar “grupos de autoajuda” pelo aplicativo Whatsapp. A menina conta que fez o primeiro corte com um compasso há três anos e, desde então, só conseguiu ficar sem se mutilar por, no máximo, cinco meses.
— Começou na sala de aula, e me arrependo bastante. Falo muito com os curtidores da página para nunca darem o primeiro corte, pois se torna um vício. Depois desses meses, meus cortes, que antes eram leves, acabaram só aumentando e ficando fundos, deixando cicatrizes — conta A., aluna de um colégio estadual do Rio que diz ter aderido aos cortes por conta de traumas de infância e familiares, sobre os quais se recusa a falar.
O pai dela mora em Minas Gerais, e a mãe, no Rio, não desconfia do problema. Há uma semana, a adolescente foi chamada pela direção de sua escola, que percebeu o comportamento:
— As diretoras conversaram bastante comigo, e implorei que não contassem para minha mãe. Prometi que não ia me cortar mais lá dentro. Mas (ao fazer isso), sinto alívio na dor sentimental, troco-a pela física. Pelo menor por um momento eu me sinto livre de tudo. Esse é o problema: acaba dando vontade de me cortar compulsivamente.
Na última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-5, na sigla da Associação Americana de Psiquiatria), a automutilação sem intenção de suicídio ficou sob observação para ser tratada como um transtorno isolado, apesar de estar comumente associada a comportamentos obsessivos compulsivos e outras síndromes, como a de Borderline. De acordo com o psiquiatra Olavo de Campos Pinto, membro do International Mood Center e ex-professor da Universidade da Califórnia (EUA), o principal público atingindo são meninas de 13 a 17 anos. A internet tem papel preponderante na disseminação atual da prática, que ele chama de epidêmica.

Nessa idade, a pessoa não tem a personalidade formada e assume um comportamento de grupo altamente perigoso. As redes sociais são multiplicadores, o principal combustível, e (a automutilação) está se tornando uma epidemia. É uma maneira de lidar de forma impulsiva e destrutiva com frustrações e ansiedades. Tenho visto cada vez mais casos na pré-adolescência. É assustador — diz Campos Pinto. — Estudos de condução nervosa sugerem que, quando há uma sensação de frustração, o corte alivia a dor psíquica. Há um alívio imediato, mas, quando passa, vem uma sensação de vergonha, de arrependimento, de ser descoberto no seu ato.
Anteontem, o Colégio Sacré-Coeur de Marie, em Copacabana, Zona Sul do Rio, realizou uma palestra sobre o tema com psicólogas. O público-alvo eram alunos do 7º ano, e a programação fez parte de um evento em que os adolescentes escolhem os assuntos debatidos. Alguns choraram, outros saíram do auditório durante a apresentação. Orientadora educacional do ensino fundamental II, Clícia Belo conta que os primeiros casos surgiram quando a cantora teen Demi Lovato assumiu que se automutilava. As redes sociais trouxeram de novo o fenômeno à tona.
— Há uma percepção de que está numa crescente muito grande, sobretudo por causa das redes sociais, como produção de autossubjetividade. Muitos acabam praticando algum episódio para tentar acompanhar um grupo. A escola é espaço de possibilidades de coisas que, em casa, não se pode conversar pela sensação de incompreensão, inutilidade, culpa, desamparo e desamor — explica Clícia.
Aluno do 7º ano, X., de 12 anos, faz terapia há quatro e diz que às vezes sente vontade de se cortar, mas que nunca teve coragem:
— Penso em me cortar, mas sinto que não posso fazer isso e sinto dores de cabeça, nervosismo, aflição, muito estresse. Fico tremendo às vezes, e o pensamento dói. Mas sinto que não posso me automutilar porque seria muito torturante. Não posso contar para os meus pais para não envergonhá-los. Contei para minha terapeuta, e ela fez com que eu pensasse que não vai durar para sempre. Procuro me distrair e ver um filme.
A psicóloga clínica Elisa Bichels diz que já atendeu a mais de 80 pacientes de 13 a 16 anos com casos de automutilação, todos de classe média e alunos de escolas particulares do Rio. Segundo ela, além dos cortes, há outras formas de autoagressão como queimaduras, menos usuais. Ela também afirma que o aumento da incidência está ligado às redes sociais.

‘ANIVERSÁRIO’ DA CICATRIZ

— Há quem se utilize de um ato autolesivo pela dor, mas outros (o fazem) porque todo mundo está fazendo, para ver qual é. Há blogs que ensinam qual a melhor lâmina, em que parte do corpo você tem mais alívio. A questão maior é convencê-los de que as informações da internet não são verdadeiras. Para dar vazão instantaneamente àquela angústia enorme, eles deslocam o sofrimento. Por isso, vira uma compulsão. Eles ficam prestando atenção ao corte, comemoram o aniversário da cicatriz.... Muitas vezes já consegui evitar lesões conversando com eles pelo WhatsApp — conta Elisa.
A terapeuta cognitivo-comportamental explica que a duração do tratamento depende da gravidade das lesões e do tempo das práticas de automutilação. Para além do óbvio risco de infecções e doenças, há as marcas psicológicas, mais difíceis de apagar. Aluna de uma escola particular de Santa Cruz, Zona Oeste da cidade, Y., de 15 anos, está se tratando há um ano, mesmo período em que está sem se cortar, depois de sua mãe ver as marcas e cicatrizes em suas coxas. Ela conta que descobriu a prática em páginas no Tumblr.

— No meu caso, foi para aliviar frustrações. Quando criança, eu era bem gorda. Apesar de ter emagrecido, me comparava muito com meninas da minha escola. Via posts de garotas que se autoflagelavam por não conseguir atingir metas de dietas. Vi nisso um Norte. Fazia os cortes com lâmina e apontador. É como se estivesse tirando tudo dentro de mim. Hoje, tenho ajuda de uma psicóloga e estou bem melhor. Mas já passei por momentos complicados em que pensei em me cortar de novo. É uma recuperação para o resto da vida.
Coordenadora de saúde da escola municipal do Ginásio Experimental Olímpico Juan Antonio Saramanch, em Santa Teresa, Angélica Bueno diz que o problema já foi detectado ali:
— São meninos e meninas de, às vezes, 12 anos. Estamos tratando dessa questão com as famílias e com profissionais da saúde

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