CRENÇAS EM XEQUE


como é que eu vou dar xeque-mate a este fedelho

Você já viu um autêntico revolucionário de perto? Daqueles cujas ideias mudam sistemas, reorganizam valores e mobilizam milhares de pessoas? Sempre imaginei um revolucionário como uma criatura de discurso inflamado, brilho faiscante no olhar, imbuído de uma profunda certeza e do desejo messiânico de querer mudar o mundo. Seres de alma ígnea, vibrante, poderosa, influente. Por isso me intriga muito o olhar plácido e os gestos tranquilos dessa senhora de 63 anos que está à minha frente. Até os 40, ela era apenas uma simples dona-de-casa do Estado americano de Minnesota. Hoje Kay Pranis - é o nome dela - se tornou o pivô de uma revolução radical e silenciosa nas velhas estruturas judiciais americanas. E o que ela propõe é algo bem simples: a escuta atenta do outro num círculo de pessoas. Depois de um crime, por exemplo, o assassino já condenado é convidado a se reunir com a família da pessoa que ele matou. Tanto ele pode presenciar os estragos emocionais e psicológicos que provocou, e com isso trazer para sua consciência as consequências dos seus atos, como terá a chance de explicar seus motivos e assim abrir a possibilidade de aliviar a dor do coração das pessoas ligadas à vítima. Dessa maneira, um reconhece a humanidade do outro. O confronto pode ser auxiliado por um círculo de psicólogos, psiquiatras, professores, advogados, religiosos e também representantes da comunidade. O resultado dessa simples escuta mútua é radical: as chances de essa pessoa cometer um novo crime caem e inicia-se um processo de regeneração interna - e o nome desse processo proposto por Kay é mesmo justiça restaurativa. E nessa sala cor de pêssego da Associação Palas Athena, entidade que trouxe Kay Pranis para São Paulo no ano passado, ela vai me explicar diretinho como a força de uma única ideia é capaz de mover mundos e influenciar pessoas. Sem precisar do ardor de um revolucionário mexicano ao tirar o sombrero e gritar "Viva Zapata!".
Espiga de milho
Eu gosto muito das minhas ideias, tanto quanto acredito que você deva apreciar e defender as suas. Elas são como uma espiga de milho colocada na frente de um burrinho que o faz andar para a frente. Somos movidos por aquilo que acreditamos, ainda mais quando o pensamento se casa com a emoção. O problema é que as ideias são ambíguas: podem ser benditas e geradoras de benefícios para todos ou, então, prejudiciais e perigosas, capazes de fazer mal não só a nós mesmos como também a outras pessoas. E nem sempre estamos conscientes de a que partido elas pertencem. Nem sempre a gente acerta. Ou você vai me dizer que nunca se arrependeu de suas próprias conclusões a respeito de determinado assunto? Ou que nunca prejudicou ninguém, mesmo sem querer, a partir do que pensava ser o correto? Podemos pagar um preço alto por nossos conceitos e apreciações. Por isso, é preciso reflexão e vivência antes de atirarmos completamente o que pensamos. O budismo fala de três fontes de sofrimento, e uma delas é nossa própria ignorância. Isto é, o que pensamos que é muitas vezes não é. Nossa apreciação da vida costuma estar em bases falsas, e esse é o risco de se abraçar completamente uma ideia sem refletir. Seguir por impulso nossas próprias avaliações, sem questioná-las, sem vivenciar o que elas propõem, é apenas falta de sabedoria. Uma certeza cega advinda da falta de visão.

A maioria de nossas ideias, a imensa maioria mesmo, não resiste a uma simples análise de lógica. Você já pensou nisso? Nossas escolhas frequentemente são baseadas em conceitos frágeis, capengas, destituídos de sentido ou realidade. Mesmo assim, costumamos abraçá-los como verdades únicas e absolutas, os embalamos como nossos próprios filhos e muitas vezes os defendemos até a morte - ou pelo menos até a próxima discussão de bar. "O ego gosta muito das ideias: se eu penso, logo existo, é o que Descartes costumava dizer. Por isso temos essa necessidade de agarrar nossos conceitos e crenças com unhas e dentes: o ego precisa se assegurar de que existe e de que é extraordinariamente importante", diz com bom humor, e não sem uma pitadinha de ironia, o mestre budista Chögyam Trungpa.

Por isso me agrada muito estar diante de Kay Pranis. Ela não me parece querer possuir suas próprias ideias ou extrair importância pessoal delas. Mesmo porque, com relação aos círculos de paz (ou processos circulares, com também é chamado), elas não são propriamente suas. Kay Pranis as abraçou e as impulsionou para a frente. No caso dela, foi seu primeiro chefe, Howard Zehr, um advogado cana dense que usava a discussão em círculo e o bastão de fala (talking stick) nas suas reuniões, inspirado nas tradições dos índios americanos. O bastão de fala é passado de pessoa a pessoa dentro do círculo, e só quem o está segurando tem direito a se expressar. Enquanto escuta e espera sua vez de dizer o que pensa, quem está no círculo escuta as diferentes visões das pessoas sobre aquele mesmo assunto, e geralmente aprende com elas. Esse recurso simples acalma os ânimos e evita que a discussão termine numa pancadaria. "Os círculos, que agora estão sendo empregados em escolas e empresas nos Estados Unidos e em outros países, como o Brasil (especialmente nas varas de infância e adolescência e em escolas públicas), reconhecem que todos estamos interligados e que todos precisam de ajuda. Ajudando os outros, estamos, ao mesmo tempo, ajudando a nós mesmos. Incorporando a experiência de todos os integrantes do processo, sem hierarquia, é possível gerar uma nova compreensão do problema e possibilidades inéditas de solução", diz Kay.

Fonte de inspiração Quase sempre o que nos move nos foi proposto por uma ideologia, por uma crença, pelo exemplo de uma pessoa. Por isso, uma das primeiras providências ao abraçar uma ideia é perguntar a si mesmo quem ou o que a inspirou. Essa pessoa é digna de crédito? Há outros exemplos na história da humanidade que propuseram o que ela apresenta? Quais foram os resultados conseguidos? Se tivessem feito essas simples perguntas, os seguidores do general Ratko Mladik, na Guerra da Bósnia, veriam que a eugenia racial que ele propunha também havia sido pensada por Adolf Hitler, e que uma das consequências do seu raciocínio motivou nada menos que um dos maiores desastres da história.

No caso de Kay Pranis, por exemplo, um dos seus líderes preferidos é Ghandi, um homem aparentemente frágil, que se vestia com panos brancos de algodão que ele próprio tecia, uma águia num corpinho de tico-tico, um pouco assim como ela própria, eu diria. Líder político que enfrentava firmemente os arrogantes vice-reis do Império Britânico na Índia, ele é uma figura inspiradora para ela. "Gandhi tinha uma força interna descomunal, alimentada por sessões de meditação, leitura das escrituras sagradas e orações diárias. A verdade, para ele, era um sinônimo do próprio Deus", diz Kay Pranis com os olhos marejados.

Questionar os modelos que nos inspiram é uma providência de base, portanto. "A inteligência reflexiva precisa andar ao lado das crenças. Não só num primeiro momento, mas sempre. Acreditar, manter um vínculo de confiança, é muito positivo. Mas esse vínculo também precisa do amparo da mente analítica, que pode, inclusive, enriquecer a compreensão que temos da própria", diz a psicóloga Sandra Taiar. Ou, então, acabar com ela. O que, dependendo do caso, pode não ser tão mau assim.

Outro cuidado: saber separar bem as coisas. "Uma frustração com uma doutrina ou líder religioso ou político, por exemplo, não precisa invalidar toda a forma de expressão religiosa ou política. Não é porque um político é corrupto que preciso generalizar e achar que todos os políticos são corruptos, ou que a política não tem razão de existir", diz a psicóloga clínica paulista Fernanda Rodrigues. É um risco, e muitas vezes uma injustiça, estender o que concluímos com relação a uma parte para todo o conjunto. "Com isso, nos tornamos desconfiados, cínicos, sarcásticos. É uma forma de defesa, é claro, mas também um bloqueio, uma parede, que nos impedirá de nos entregarmos à vida de forma aberta e intensa. E só vive assim quem tem fé nas pessoas, nos relacionamentos, na vida."

Outra boa medida é separar essas grandes figuras dos seus representantes. "Pode-se falar em nome do amor de Cristo e gerar processos sanguinários como os da Inquisição. Pode-se invocar grandes mestres indianos e, por trás, atuar apenas como um instrutor manipulador. Os falsos profetas são peritos nisso", afirma a psicóloga. Nem tudo que parece ser bom, generoso, amoroso é. "É prudente observar comportamentos e se questionar sobre os verdadeiros sentimentos que impulsionam as pessoas. Alguém pode falar muito de amor e compaixão, mas agir guiado pela vaidade ou pelo orgulho."

Os valores que uma determinada ideologia, filosofia ou doutrina apresenta, como o amor, a paz ou a verdade, referendam aquilo que é proposto. "É preciso verificar quais são os valores que alicerçam um pensamento, uma crença, uma escolha. Faço algo porque sou motivada pela minha ambição, ou pelo meu desejo de vingança, ou porque sou impulsionada por algo maior dentro de mim? Questionar quais são os verdadeiros motivos que me levam a me entregar e me colar a uma ideia é essencial", diz a psicóloga Sandra Taiar. E nem sempre eles estão aparentes. "Às vezes é necessário fazer uma terapia breve para conhecer mais profundamente a razão porque uma ideia pode se transformar numa verdadeira obsessão."

Mas, se as grandes ideias costumam inspirar nossas vivências e escolhas, também ocorre o contrário: uma forte experiência é capaz de subverter todos os nossos conceitos. É o que vamos ver a seguir.

Puxada de tapete
Psiquiatra com sólida formação intelectual no campo das ideias, Paulo José Moraes acabou diante de uma experiência transformadora que o fez mudar seu olhar para a vida. Na década de 70, quando era jovem e diretor do centro acadêmico de sua faculdade, ele costumava organizar shows com Vinicius, Toquinho, Gilberto Gil, que atraíam estudantes, mas também representantes das tradições espirituais afro-brasileiras, a quem eles eram ligados. Numa ocasião, depois de um espetáculo, alguém do público disse a Paulo: "Você é filho de Xangô, você tem o jeitão dele". Ele registrou a estranha observação, embora não soubesse direito o que isso vinha a ser. Anos mais tarde, num terreiro de candomblé que ele visitava pela primeira vez, incorporou o orixá. "Entrei em transe, com a música, o ritmo do atabaque. E sem saber de nada, inconscientemente, repeti os movimentos que o orixá Xangô usa para se manifestar num terreiro. Eu, um psiquiatra, com toda a formação racional para repelir aquela experiência, estava ali manifestando a força ancestral de um arquétipo: Xangô", lembra.

Daquele momento em diante, decidiu ir a fundo na religião. "Tive o apoio de grandes mestres, como Carlos Buby, do Templo Guaracy, que podiam explicar aquela manifestação de uma forma que minha parte racional pudesse aceitá-la", diz ele. Hoje, sua relação com essas manifestações é totalmente pacífica: cinéfilo, ele vai lançar um livro (Os Orixás Vão ao Cinema) que mostra como os arquétipos da tradição afro-brasileira podem ser representados no cinema e explica como um terapeuta pode usá-los como repertório de referência no diagnóstico dos seus pacientes. "Pude integrar a experiência dentro do meu repertório intelectual e ao meu sistema de valores, em vez de negá-la", afirma o psiquiatra, que atualmente coordena a supervisão dos médicos do Núcleo de Apoio da Saúde e da Família do Instituto de Responsabilidade Social do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. "Mas foi a partir dessa experiência que transformei muitos dos conceitos que orientavam minha vida."
Cancelando Crenças
Mas nem sempre as crenças são positivas. As crenças limitantes, que começam com simples ideias de que não sou capaz de fazer alguma coisa, nos cerceiam e impedem nossa vida. Os livros de autoajuda estão repletos de indicações de como acabar com elas, mas um deles incorpora a física quântica para isso. A americana Natalie Reid, autora de A Física do Sucesso, utiliza meditações e visualizações para cancelar crenças limitantes e substituí-las por ideias mais construtivas. Ela sugere cinco passos, e respectivas meditações, para cancelar uma crença ou criar outra mais benéfica. No primeiro deles, Natalie diz que é preciso assumir a responsabilidade do que acontece, pois a vida apenas reproduz o que nossa mente acredita; no segundo, ela aconselha investigar e eliminar nossa crença limitante; no terceiro, projetar e criar outra crença para substituí-la; no quarto, dar espaço para que ela possa se manifestar concretamente em vida e, por último, dar sentido e significação para a nova ideia.

Não sei se funciona. Tenho uma amiga que forrou a geladeira e o corredor do seu apartamento com cartazes com crenças afirmativas, e não vi sua vida mudar um milímetro. Outra que fez os exercícios do livro O Segredo para ter mais prosperidade e que não conseguiu aumentar nem seu limite do cartão de crédito. "É preciso uma mobilização muito grande, de corpo, mente e espírito para mudar uma crença, especialmente se ela for muito arraigada. Muitas vezes só querer, imaginar, visualizar é insuficiente para isso", diz a psicóloga Sandra Taiar. Mesmo assim, não custa experimentar alguns exercícios do livro. Mal não vai fazer.

Ou, então, seguir um curso rápido de fim de semana sobre crenças, como aquele que o instrutor Mizuji Kajii faz pela web. Eu, e uma pequena classe virtual de alunos, acompanhamos suas instruções pela internet durante dois dias no curso "Peça e Receba". Deu certo, pelo menos para mim: consegui afastar uma crença limitante que andava me atrapalhando ultimamente e substituí-la por outra. Acho que também ajudou o fato de eu sentir uma empatia natural por Mizuji, por seus gestos serenos e sua atitude respeitosa com as pessoas. Sei que ele diria que isso não tem nada a ver com seu método. Mas tenho a firme convicção de que é a energia transmitida pelas pessoas que nos faz acreditar em suas ideias. E, como você viu até agora, nada alicerça essa crença, a não ser o mais puro e cristalino achismo.
Fonte do Texto : Revista Vida Simples,por Liane Alve.